domingo, dezembro 17, 2006

As coisas à solta.
Um horror incerto, esbatido, pelas certezas, pelos dogmas, pelos outros.
Ao não ser o míudo, procurar garantias?
Alimentando-se de coisas que vão fazendo predizer as seguintes.
Mas não, claro que não...
Ser o volante, o guia. Explorar sem explorar, ser sem querer ser, sem ter de procurar ser.
Mas o que é feito?

Sei lá o que é feito.
Sei lá de que sou feito.
Não sei bem o que estou a escrever.
E sobretudo, já não sei como é que passou tanto tempo...
Desde que fui.
Desde que passei a ser fracções, quando fui.

Acima de tudo, a simplicidade dos laços passou-me a pesar como uma coisa disforme. Em deficiência, vezes houve em que esganei as mãos por me esquecer da transparência táctil do tecido. Outras, doía-me a ponta da agulha pressentida, ao enrijecer a pele, membrana defensiva e estéril, embebida em vagos cremes de identidade perdida, emprestada às sucatas de Ninguém-Alguém. Contra o novelo fatal, contra a dôr pungente da rotura, a agressão total que assumia [a insignificância | o excesso de nada | a própria fragilidade] expostas, contra a sarjeta que era tudo, e contra a mentira que eu sentia ser tudo, um adiamento do rebaixamento, uma absoluta dôr de mim, uma em descrença esmigalhada pessoa, com forças para procurar, para ir tirar um curso, para chegar lá e ter um pulso, desde o primeiro dia, um pulso cerrando os nervos, tendões vampirescos de presença, a energia que é as cinzas, "o que não mata, torna-nos mais fortes", mas doía, doía sempre, o limite da voz, o limite da segurança, era o limite da cidade, a falésia do espírito, a dôr do caminho. Aproximação a qualquer coisa, as brasas lá dentro, a fuga por reinvenção, rotina, postura. O pé ante pé das pequenas palavras trocadas, tangente à dôr, a meio evitamento. Mas nas horas da morte, no vazio, na solidão, mais tarde ou mais cedo, o chamamento do Novo e do Comércio de almas abriram uma e outra brechas, rasgaram o papel machê do presente, e destapada, a situação foi voltar ao mais íntimo nível, e a esse mesmo, confrontar a distância, chocar com ela. E neste ciclo se repetiram novas crenças, perante a progressiva concepção das novas envolventes. E neste ciclo se reformaram mais operários da essência, até que o lar ditou uma desistência por assumir, um reconfigurado palácio de nenhures, uma rotina pintalgada de hábitos-ócios por cima do vazio. Até que um dia, das reticências de emoção e sonho, o esporádico tiroteio das amizades (periféricos amores, conceitos enlameados próximos) tornou-se bombardeio, disparidades anularam-se em espiral de alma, e as novas rotas, na paz fria e simples das manhãs, do sol, da rua, essas as vagas redentoras enquanto tais.

E nada disto basta como biografia, nada disto é mais que abstractas veias do que se conseguiu ou se pôde ser, ou ir sendo.
De 27 de Outubro:

Esgoto-me.
O sol é um capricho.
Arde a impotência sem tempo.
Que a sombra obscurece a memória e o nós.
Fere a chama escura.
A reza escritura apagamento.